Cazuza
Não gosto de cinebiografias, principalmente aquelas que enfocam astros do rock. Desde "A Rosa" (adaptação disfarçada da vida de Janis Joplin, estrelada por Bette Midler) até "The Doors" (horrendo longa de Oliver Stone, com Val Kilmer e Meg Ryan), nunca vi algo que prestasse. Aliás, espero que nenhum leitor deste blog tenha jogado tempo fora assistindo ao terrível "Hendrix", telefilme exibido no Telecine alguns meses atrás, que vi até o final movido por impulsos masoquistas. Talvez "A Fera do Rock" (biografia de Jerry Lee Lewis, protagonizada por Dennis Quaid) seja o menos pior de todos eles; mesmo assim, não o recomendaria para locação. Contudo, apesar dos precedentes traumáticos, confesso que estou curioso para assistir a "Cazuza - o Tempo Não Pára", Primeiro, porque Cazuza foi um de meus ídolos na juventude (ah, os anos 80), e é talvez o primeiro deles a ter sua vida retratada na tela grande. Segundo, porque a diretora é Sandra Werneck, a mesma dos bons "Amores Possíveis" e "Pequeno Dicionário Amoroso". Terceiro, porque a vida de Agenor de Miranda Araujo Neto honra o clichê: daria um filme e tanto. Mas, mesmo que não seja uma obra-prima, sua cinebiografia possui o mérito de resgatar a obra daquele que foi talvez o melhor compositor de sua geração.
Cazuza foi um enfant terrible. Filho de João Araújo, fundador da gravadora Som Livre, conviveu desde cedo com grandes nomes da MPB, ao mesmo tempo que usufruiu das benesses de pertencer a uma família de posses. Durante a adolescência viajou para Londres, começou (e abandonou) um curso de fotografia na Califórnia, morou em um apartamento em Ipanema (onde traficou cocaína), sempre às custas dos pais, que ainda assim tentaram "endireitá-lo". Um exemplo: cedendo às pressões familiares, Cazuza prestou e foi aprovado no vestibular do Centro de Comunicações de Jacarepaguá, mas trancou a matrícula logo em seguida. Questionado por João a respeito de sua atitude, retrucou:
- Você disse que me daria um carro se eu entrasse na faculdade, mas não falou nada sobre cursá-la...
Cazuza poderia ter sido mais um filhinho de papai babaca como tantos que se encontram por aí. Mas aquele moleque arrivista tinha um genuíno talento, que começou a ser estimulado a partir de um curso de teatro promovido pela trupe do Asdrúbal Trouxe o Trombone (grupo que revelou atores como Regina Casé e Luis Fernando Guimarães) no lendário Circo Voador. Lá, Cazuza conhece amigos como Bebel Gilberto (filha de João Gilberto e co-autora de "Preciso Dizer que Te Amo") e Léo Jaime (responsável por recomendá-lo ao Barão Vermelho, que estava à procura de um vocalista). Foi numa das apresentações desse curso que Cazuza canta pela primeira vez em um palco (interpretando "Odara", de Caetano).
Cazuza e Roberto Frejat, guitarrista do Barão, sintonizam-se de imediato. Afinal, ambos são fãs de Luís Melodia, Billie Holiday, Janis Joplin, Novos Baianos: é o início de uma das melhores parcerias do rock nacional. Contudo, o jeito porralouca de Cazuza se manifesta já no primeiro show da banda, quando, completamente de porre, canta o tempo todo com a braguilha da calça aberta. Em 1982 o Barão Vermelho lança seu primeiro disco. Aclamado pela crítica, obtém no entanto vendas pífias: 8 mil cópias. Uma injustiça, principalmente por se tratar do álbum que contém a obra-prima "Todo Amor que Houver Nessa Vida" ("Eu quero a sorte de um amor tranqüilo/ Com sabor de fruta mordida/ Nós na batida, no embalo da rede/ Matando a sede na saliva").
O segundo álbum, "Barão Vermelho 2" (1983), tem como carro-chefe "Pro Dia Nascer Feliz", música também gravada por Ney Matogrosso (ex-namorado de Cazuza, que o descreveu na biografia escrita por Lucinha Araujo como "um anjo caído do céu, encantador e apaixonante"). Mesmo assim, não vende mais que 15 mil cópias; fosse hoje, qualquer gravadora teria dispensado o Barão de seu casting (bons tempos, nos quais uma banda tinha o direito de uma terceira chance para finalmente emplacar). Tiro certeiro: "Maior Abandonado" (1984) vende 100 mil cópias, impulsionado pelo show no Rock in Rio, duas músicas na trilha sonora do filme "Bete Balanço" de Lael Rodrigues e uma turnê intempestiva marcada por confusões causadas pelas bebedeiras e destemperos de Cazuza, que tem seu desligamento do Barão anunciado oficialmente no "Fantástico" da Rede Globo, pouco antes da exibição do clipe de "Eu Queria Ter uma Bomba".
Em novembro de 1985 chega às lojas seu primeiro álbum solo, precedido pelo estouro nas FMs de "Exagerado", cuja letra descreve à perfeição seu jeito impulsivo ("Até nas coisas mais banais/ Pra mim é tudo ou nunca mais"). No ano seguinte lança seu segundo álbum, "Só Se For a Dois". Contudo, sua saúde começa a ratear: seu corpo perde peso, os cabelos tornam-se mais ralos. Em abril de 1987, o diagnóstico: Cazuza tem o vírus HIV. O fim do ano é marcado pelas primeiras crises decorrentes da Aids que já se manifestava, e Cazuza passa duas semanas internado na CTI de uma clínica em Boston. A resposta vem através da música: novas composições surgem em ritmo frenético. 1988 é o ano de seu auge criativo, com o lançamento de "Ideologia", seu melhor álbum. Nas letras, flashes de sua batalha contra a doença: "meu prazer agora é risco de vida", "eu vi a cara da morte e ela estava viva". Ao mesmo tempo, Cazuza flerta com a MPB e seus versos ganham em lirismo, como em "Minha Flor, Meu Bebê" ("Dizem que estou louco/ (...) em perder noites de sono/ Só pra te ver dormir/ E me fingir de burro/ Pra você sobressair") ou na belíssima "Blues da Piedade" ("Vamos cantar o blues da piedade/ Porque há um incêndio sob a chuva rala/ Porque somos iguais em desgraça").
Os sinais da doença tornam-se cada vez mais evidentes. Durante a turnê do lançamento de "Ideologia", Cazuza desmaia em um show em Belém do Pará. Noutro, no Canecão, cospe em cima da bandeira do Brasil. Em Maceió, arria as calças revelando não usar nada por baixo. Em meio a tudo isso, sofre com o turbilhão do tratamento da Aids, feito à base de AZT, remédio que lhe dá violentos efeitos colaterais. No começo de 1989, é lançado "O Tempo Não Pára", registro ao vivo dessa turnê; mais de 500 mil cópias são vendidas. Em fevereiro, finalmente admite em público, através de uma entrevista concedida a Zeca Camargo para a Folha de S. Paulo, que está com Aids. A partir desse dia, a imprensa não lhe dá paz. Pouco depois, contrai hepatite; do leito do hospital escreve freneticamente novas letras, agindo como se apenas suas atividades musicais fossem capazes de mantê-lo vivo. De cadeira de rodas, grava o álbum "Burguesia" em condições periclitantes: febril, com a voz débil e irregular.
Em 26 de abril de 1989, um duro baque: a revista Veja estampa em sua capa uma foto ressaltando a magreza quase esquelética do cantor, com a sensacionalista manchete "Uma vítima da Aids agoniza em praça pública". Cazuza lê toda a reportagem com olhos lacrimejantes, que se transformam em choro compulsivo após a leitura do último parágrafo, que sentenciava: "Cazuza não é um gênio da música. É até discutível se sua obra irá perdurar, de tão colada que está no momento presente". Em agosto sai "Burguesia", álbum duplo que contém a faixa "Azul e Amarelo", dos significativos versos "Senhor, estou pronto para ir ao seu encontro/ Mas não quero/ Não vou/ Eu não quero".
Dois meses depois, Cazuza é internado em São Paulo devido a uma hemorragia interna. Submete-se a tratamentos alternativos, que incluem vacinas à base de sangue de cavalo (pouco havia a fazer na época). Cazuza morre no dia 7 de julho de 1990, aos 32 anos de idade (pesava apenas 38 quilos). Seu legado: 126 músicas gravadas por ele mesmo, 34 por outros intérpretes e cerca de 70 inéditas.
(Um parênteses - reli hoje uma entrevista concedida por Cazuza a Sônia Maia para a edição de março de 1989 da finada revista Bizz, e me deparei com a seguinte declaração: "Eu ainda vou fazer uma excursão da Challenger para a Disneylândia, dar uma volta pela Inglaterra, entendeu? Nem preciso chegar na Lua, a Lua eu deixo para os meus netos". Que merda constatar que as idéias não correspondem aos fatos.)Escrito por Alexandre Inagaki em abril 12, 2004 10:17 PM TrackBack

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