sábado, 20 de setembro de 2008




*TALVES NÃO SEJA UM EXEMPLO DE MAE A SER SEGUIDO,MAS SERVE PARA REFLETIR
"6 de julho, 1990, Rua Prudente de Morais, Rio de Janeiro. Meio-dia de uma sexta-feira. O doutor Paulo Lopes já havia me avisado dois dias antes para que me preparasse. As forças de Cazuza iam desaparecendo sutilmente de seu semblante a cada dia. Seu estado era gravíssimo. Mas eu, sinceramente, nem sequer ouvia suas palavras, quanto mais acreditar nelas. O que sabiam esses médicos?- , pensava.
Mas, de fato, o doutor Paulo Lopes tinha com o que se preocupar. Na quinta-feira, 5, à noite, a enfermeira Edinha – nós a chamávamos Ed Motta, apelido inventado por Cazuza devido à semelhança dela com o cantor – notou que algo não ia bem. Ela relembra com pesar:
Depois que lhe dei todos os remédios através do cateter, olhei para a sonda da urina e cadê o xixi? Cazuza não estava urinando. Chamamos o doutor Paulo Lopes, ele administrou Lasix e mediu sua pressão. Estava baixinha – em geral, sua pressão era normal, onze por seis, doze por seis. A família nunca soube, mas nesse dia sua pressão caiu a quatro por zero. Pressão, aliás, de um paciente chocado que, em geral, não abre os olhos e não fala. Mas Cazuza estava acordado e falando. Foram tantos os procedimentos para tirá-lo dessa crise que não tive tempo sequer de anotar. Precisei tirar tudo do lixo depois, para recuperar as instruções, porque deu certo, ele voltou a urinar e saiu da crise.
Na manhã de sexta-feira, como nas últimas, conversamos à beira da cama de Cazuza. Desde o retorno de nossa última viagem a Boston, em março, ele voltara a morar conosco e nossa casa foi preparada para recebê-lo. Imaginei que ali, mais perto da familiaridade de nossa casa, em território seguro, ele pudesse se recuperar. Cazuza dormia em nosso quarto de casal, e nós, no de hóspedes.
Voltei bastante equipada da última viagem aos Estados Unidos. Tínhamos à disposição tudo o que uma pessoa nas condições de meu filho poderia necessitar durante seis meses. Desmontei nossa cama de casal e, no mesmo lugar, foi instalada uma cama hospitalar. Na cômoda, ajeitei todos os remédios, as seringas descartáveis, depósito para lixo descartável, para o lixo hospitalar, os kits para trocar o cateter que desde Boston haviam colocado em seu peito direito. Meu filho já não tinha veia disponível para que as drogas entrassem e aliviassem seu sofrimento. Em cada gaveta da cômoda, uma espécie de medicamento. Duas enfermeiras se revezavam dia e noite a seu lado, controlando a quantidade de soro que descia, administrando os remédios todos, trocando o curativo do cateter todos os dias. Os médicos faziam duas visitas religiosamente – de manhã e no fim da tarde. Trocava‑se a roupa de cama várias vezes ao dia. Todos os lençóis eram brancos, inclusive as fronhas dos dois travesseirinhos muito jeitosos, que eu e Ezequiel Neves roubamos da Varig. Um deles ficava entre as pernas de Cazuza, magrinhas, e o outro era usado para ajeitar suas costas. Os remédios eram inúmeros: Citovene, vitaminas, tranqüilizantes, antibióticos, pomadas, antivirais, remédios para dormir. Talvez Cazuza tenha herdado do pai, ou talvez fosse conseqüência da longa enfermidade, mas o fato é que, como João, ele tinha problemas para dormir. Nessa fase, tomava os tranqüilizantes, mas três, quatro horas depois acordava novamente. Também lutava contra o sono. E sofria com dores musculares terríveis, horrorosas. Nos últimos tempos, até morfina ele tomava. Comprar morfina era muito difícil. Apesar de ter em mãos a receita, tive até que entrar dentro de um cofre para adquiri-la legalmente. No começo ajudou, mas no final já não fazia a menor diferença.
Cazuza tinha dificuldade para respirar e sua voz estava cada vez mais fraca. Pesava 38 quilos.
Zeca, o jornalista e produtor Ezequiel Neves, grande amigo e mentor de Cazuza desde o começo do Barão Vermelho, vinha todas as tardes. Lia os jornais e comentava as notícias com meu filho. Naquela tarde de sexta-feira, ele saiu mais cedo e me contou depois que Cazuza lhe pareceu estranho e sereno. Ouvia pouco e quase não dizia nada. Era como se meu filho dissesse "deixa pra lá". Cazuza tinha dito a Zeca que queria assistir ao show do Legião Urbana no dia seguinte. Renato Russo, no 7 de julho, dia da morte e sepultamento de Cazuza, dedicou o show a ele.
Meu corpo estava debruçado sobre meu filho, e o ouvido bem próximo para poder escutar aquela vozinha, um fiapo de vida no qual me agarrava com unhas e dentes.
Perto do meio-dia, Cazuza me chamou e disse:
– Mamãe, estou morrendo...
Um vulcão de autoridade surgiu dentro de mim, enquanto lhe dizia que parasse com aquela conversa ridícula. Indignada, ia lhe dizendo que não devíamos falar sobre isso, aliás, como havíamos combinado há tempos. E ele, procurando me acalmar, tentava levantar os braços magros, fechava e abria os olhos fundos, até que parei para ouvir:
– Porra, mãe, eu tô morrendo é de fome. O que tem pra rangar?
Comecei a rir. E como se um bálsamo lavasse minha alma, olhei para ele pensando no quanto eu o admirava, em quanto seu espírito de moleque se conservou na idade adulta e que o mais adorável lado de sua personalidade se manifestava em situações tão adversas.
"Realmente, eu não conseguia dormir de jeito nenhum. Havia conversado rapidamente com ele na hora do último banho. Ele já não falava direito, muito baixinho, e não queríamos que ele se cansasse. Então, meu último contato foi um beijo na testa e o toque de minha mão em sua cabeça. Na verdade, me despedi de meu filho dois dias antes de sua morte. Cheguei do trabalho e fui para o seu quarto. Geralmente eu ficava sentado numa poltrona ao lado da cama, lendo jornal, vendo televisão.. Naquela noite quando sentei, Cazuza estava deitado de lado. Num determinado momento, nossos olhos se cruzaram fortemente. Ele olhava fixamente para mim e senti que ele fazia um balanço, um flash-back de tudo o que havíamos vivido juntos e que mais ou menos justifica o que ele disse a mim e a Lucinha, quando voltou para casa no dia em que recebeu a notícia de que estava contaminado pelo vírus hiv. Lembro dele dizer que, justo naquele momento, quando tudo estava indo muito bem para a nossa família, a tragédia se abateu. Meu último contato com Cazuza, no fim de sua vida, parecia se ligar irremediavelmente àquele momento que mudou o nosso destino. Foi como uma ligação telepática, espiritual. Naquela intensa troca de olhares, me despedi de meu filho para sempre".

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